O ensino nos EUA é melhor doque o nosso?

Recentemente (24/08/2010) a revista Newsweek publicou uma interessante e reveladora matéria sobre o nível de conhecimento dos estadunidenses sobre alguns assuntos, onde cidadãos da nação mais tecnológica do mundo não conseguem localizar o Iraque ou o Afeganistão em um mapa da Ásia, e 61 % dos pesquisados não acreditam na teoria da evolução das espécies, ainda há um grande número que acredita que o Sol é que gira em torno da Terra.

• Apenas 39% acredita na teoria da evolução de Darwin, aliás, 45% não soube associar o nome de Darwin à teoria;
• Lost? Não pergunte a um estadunidense. 73 % dos jovens americanos não conseguem localizar o Iraque em um mapa, 90 % não localiza o Afeganistão, mesmo se você lhes dá a vantagem de um mapa somente da Ásia. E mais de um terço dos norte-americanos de qualquer idade não identificam o continente que abriga o Rio Amazonas;
• 41% acreditam em espíritos e 32 em fantasmas, o iluminismo parece não ter surtido muito efeito por lá;
• Mesmo sendo tão religiosos, apenas metade dos estadunidenses foi capaz de identificar que o judaísmos é mais antigo do que o cristianismo e o islamismo
• Mesmo anos após as alegações de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa ou tinha ligações com o 11 de Setembro terem sido desmentidas, 41 % acreditam que Saddam estava envolvido no 11/09;
• Copérnico que se dane, 20 % dos estadunidenses acreditam ainda que o Sol gira em torno da Terra;
• Mais de três quartos dos estadunidenses consegue citar o nome de pelo menos dois dos sete anões, embora não consigam citar dois membros da Suprema Corte;
• Três em cada quatro estadunidenses podem identificar corretamente Larry, Curly e Moe como os Três Patetas. Apenas dois em cada cinco entrevistados, no entanto, podem identificar corretamente o Executivo, Legislativo e Judiciário como três alas do governo;
• 24 % acreditam que Obama é muçulmano.
Fonte:http://www.newsweek.com/photo/2010/08/24/dumb-things-americans-believe.html

Obviamente esses dados não têm grande valor científico,mas indicam uma realidade importante, um grupo social domina certas áreas do conhecimento que lhes auxilia na manutenção de seu status quo de nação produtora e consumidora de produtos altamente tecnológicos,mas em detrimento disso, o pouco conhecimento das áreas chamadas de humanidades demonstram que esses saberes não são fornecidos de forma igualitária a todos, pois permitiria que além de produzir e consumir, o indivíduo pudesse REFLETIR sobre seu trabalho, sobre os rumos de sua sociedade. Mas REFLETIR não deve ser função de todos em uma sociedade dividida, onde uma elite pensa e o maioria executa, trabalha,produz e consome,sendo somente essas suas funções na sociedade.
Alguns irrefletidamente podem pensar que no Brasil a situação é bem pior, nada mais errôneo, e é sobre esta análise equivocada que se discute a tão almejada qualidade na educação . O que ocorre no Brasil,é que o país está alterando sua base tecnológica de produção e consequentemente alterando seu padrão de consumo, o resultado dessas alterações é que a sociedade atual necessita de um individuo que consiga produzir e operar certa tecnologia que antes não existia no país. Esta é a razão da suposta alteração de postura da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo SEE-SP com relação ao ensino oficial, a sociedade brasileira está mudando sua forma de produzir e consumir e portanto a educação formal deve ensinar esses novos conhecimentos para que os individuas continuem com suas funções sociais: meros produtores e consumidores, sendo esta a única qualidade necessária.
As vozes do senso comum insinuam que a educação dos países ricos é igualitária, mas constata-se que essas afirmações não correspondem a realidade dos fatos, nos EUA é nítida a diferença entre as escolas públicas dos bairros de brancos e dos bairros negros, na França ocorre a mesma coisa nas periferias cheias de imigrantes, onde as escolas são precárias. Dizer que a educação deles tem qualidade é desconhecer a realidade. Os estadunidenses tem muita compreensão de exatas, pois é disso que as empresas precisam para continuarem produzindo tecnologia, mas por outro lado compreendem pouco humanidades, demonstrando pouca capacidade de refletir sobre si e o outro. É isso que significa qualidade?
O Brasil está em meio a um processo de alteração de papel no cenário geopolítico e econômico mundial e por isso necessita mudar a base de conhecimentos que fornece aos indivíduos. Como é possível notar, a sociedade mudou, e somente após esta mudança é que a educação formal também começa a mudar, confirmando a assertiva de que é a sociedade que muda a educação formal fornecida pelo Estado e não o contrário, acreditar no contrário é supor que o “rabo balança o cachorro”. Toda essa celeuma em relação a suposta qualidade da educação formal assenta-se no fato de que o país está mudando tecnologicamente seu modo de produção e necessita de novos trabalhadores que dominem minimamente algumas linguagens tecnológicas e que sejam flexíveis na realização de tarefas,como por exemplo, os bancos querem informatizar o seu atendimento, para poder demitir o maior numero de funcionários possível,objetivando obterem maiores lucros, então instalam caixas de auto atendimento, mas grande parte da população não domina esta tecnologia, grande parte dos que a utilizam, demoram muito por não dominarem os recursos das máquinas, outra parte das pessoas precisam de ajuda humana para realizarem as tarefas e ainda outra parte simplesmente só utiliza os caixas humanos. É um grande investimento financeiro para que os indivíduos não utilizem corretamente as máquinas, então os bancos gastaram muito e não conseguem demitir o quanto querem, e como as pessoas demoram muito nas máquinas é preciso instalar mais máquinas para diminuírem as filas que simplesmente não existiriam se as pessoas soubessem utilizar corretamente essas tecnologias. Este é um pequeno exemplo das alterações que estão ocorrendo na sociedade e que pressionam as alterações na educação formal.
Essas alterações de currículos e metodologias são apenas formas de modificar para conservar o status quo atual. Por isso essas alterações estão ocorrendo nos estados mais pujantes economicamente, pois são exatamente esses estados que lideram a alteração tecnológica produtiva do país. Os resultados dessa alteração podem ser previstos,pois já ocorreram em outros países,principalmente na Ásia, onde, Japão e Coréia do Sul são bons exemplos. Os alunos aprenderão a ler melhor, mas isso não significa que compreenderão textos complexos com informações científicas, o conhecimento em exatas irá melhorar para que se possa projetar e operar certos equipamentos, mas nada que ligue esses saberes ao mundo e às relações humanas, como se estes equipamentos surgissem separados dos seres humanos, os conhecimentos em humanidades ficarão relegados a um segundo plano, como o exemplo da emenda da Lei 11.684, de 2008, que instituiu a obrigatoriedade do oferecimento das disciplinas Filosofia e Sociologia na grade curricular de todas as escolas do país, tornando-se assim disciplinas específicas e não mais conteúdos abrangíveis por outras áreas do conhecimento.
A princípio a idéia parece boa, mas basta observarmos mais cuidadosamente para constatarmos que instituiu-se duas novas disciplinas em um currículo já cheio, e não se alterou o tempo de permanência do estudante na escola, então surgem mais duas disciplinas que ocuparão o lugar de outras disciplinas que já existiam e que são igualmente importantes, na verdade ao contrário de melhorar a visão humanística essa decisão precariza ainda mais essa visão,pois, diminuíram as aulas de geografia e história para incluírem sociologia e filosofia, e com pouquíssimo tempo de aula, não se consegue ensinar nem o que já existia e nem o que passou a existir. Portanto essa lei ao contrário do que parece, não veio para avançar a cidadania mas sim para precarizar ainda mais o ensino das áreas de humanidades.
Existe um enorme hiato entre o que o senso comum estabelece como qualidade sem conseguir defini-la coerentemente e o qual seria a função real da educação escolar oficial controlada e oferecida pelo Estado.
Para Durkheim (1955):
“… A educação dada pelas escolas deve ficar submetida ao controle do Estado. Não é sequer admissível que a função de educador possa ser preenchida por alguém que não apresente garantias especiais, a respeito das quais só o Estado pode julgar …
…Não existe escola que possa reivindicar o direito de dar, com toda liberdade, uma educação anti-social…”
Isso ocorre por uma razão prática, cada sociedade constrói sua forma peculiar de organização e de produção de sua vida concreta, como vivemos em uma sociedade baseada na produção e consumo de mercadorias, onde tudo deve ser transformado em meras mercadorias para ser negociado, a visão romântica de uma educação salvadora e regeneradora baseadas nas memórias afetivas da infância vivida pelas pessoas, não auxilia na resolução das questões que se colocam, como bem demonstraram Marx e Engels ( 2002)
“A burguesia rasgou o véu de sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações monetárias.
/…/Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas; as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes de se ossificar. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.
/…/Pela exploração do mercado mundial a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países.”

Portanto em uma sociedade cindida em classes antagônicas e com interesses distintos, a decisão sobre o que ensinar na escola oficial do Estado controlado pela “classe dominante” é sempre voltada para favorecer aos interesses dessa classe, para que pareça que seus interesses são os interesses de todos.Por esta razão no sistema econômico vigente a educação formal deve ser dada ao indivíduo SOMENTE para que ele seja capaz de cumprir o papel que lhe foi instituído a fazer. Se uma sociedade tem uma produção altamente tecnológica as pessoas serão ensinadas a dominarem certas habilidades matemáticas para continuarem produzindo e consumindo tecnologia, por outro lado, se uma sociedade é predominantemente agrária, não é preciso que sua população saiba mais do que rudimentos de alfabetização. Quem observa esse fenômeno de longe pode acreditar que o indivíduo que domina os conhecimentos de exatas, tenha uma qualidade melhor de educação do que o individuo pouco alfabetizado, mas ambos conhecem apenas o suficiente para exercerem seus papéis desiguais em uma sociedade desigual.

É ruim, mas pode piorar!

Bibliografia

DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia, trad. Lourenço Filho, Edições
Melhoramentos, São Paulo, 4ª ed., 1955

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista,Ed. L&PM, Porto Alegre, 2002.

GRAHAM,David A, America the Ignorant. Revista NEWSWEEK, 24/08/11/2010 Disponível em : http://www.newsweek.com/photo/2010/08/24/dumb-things-americans-believe.html

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